E se o silêncio começasse a tomar conta da sua vida?
Nuances da Surdez reúne livros, histórias e reflexões nascidas da experiência real com a deficiência auditiva, transformando vivências pessoais em literatura, crítica social e reflexão sobre tudo aquilo que a sociedade ainda insiste em não ouvir.
Enquanto revisitava conversas com leitores para selecionar as ideias que ganhariam vida na continuação de Nuances do Silêncio, uma palavra reaparecia com insistência:
Inclusão.
E se a surdez não fosse a protagonista do próximo romance?
A inclusão, ou a falta dela, assumiria bem esse papel?
Comecei a trabalhar nessa ideia tendo em mente um artigo. Mas, a cada novo capítulo que eu escrevia, vários outros pareciam pedir para fazer parte. Quando me dei conta, percebi que minha própria trajetória fornecia matéria-prima para falar de muitas camadas da exclusão.
Perceber isso também despertou fragmentos de uma raiva antiga. Lembranças de barreiras que precisei enfrentar, de direitos que nunca foram reconhecidos e de tecnologias assistivas tratadas como privilégio. Aos poucos, a vontade de apenas informar deixou de ser suficiente. Eu também queria expor e denunciar a exclusão que nós, pessoas com deficiência, somos obrigados a encarar ao longo da vida.
E aquelas conversas com os leitores mostravam que essas dores estavam longe de ser apenas minhas.
Educadores falavam de frustração. Pais, de cansaço. Pessoas com deficiência, da sensação constante de não pertencer. Quanto mais eu ouvia, mais percebia que aquela realidade não se explicava apenas pela falta de empatia ou de atitude. Havia algo mais profundo. Uma engrenagem que se repetia na escola, na saúde, no trabalho e nas relações sociais. Uma engrenagem que eu também conhecia, não como observador distante, mas como alguém que a atravessou por dentro.
A inclusão escolar talvez seja a face mais visível desse debate, mas está longe de ser a única. A perspectiva que apresento aqui vem de alguém que lidou com a exclusão em diferentes camadas: como pessoa com deficiência auditiva progressiva, como paciente dos sistemas público e privado de saúde, como usuário de tecnologias assistivas de alto custo e como profissional inserido no mercado de trabalho.
Ao longo destas páginas, examino sistemas que deveriam oferecer apoio, mas que, na prática, muitas vezes abandonam justamente quem deveriam ajudar. O peso desse abandono aparece no dinheiro gasto, no tempo perdido, na burocracia, no desgaste emocional e, sobretudo, na sensação de que o direito de viver com dignidade ainda precisa ser implorado como se fosse um favor.
Este livro não repete discursos prontos sobre inclusão. Ele questiona suas incoerências. Não romantiza dificuldades, não suaviza consequências e não transforma falhas estruturais em histórias inspiradoras. O peso deste texto é proporcional à gravidade do que ele revela.
Escrevo na esperança de que possamos dar, como sociedade, um passo difícil e necessário: admitir que erramos feio com as pessoas com deficiência.
Talvez só a partir dessa honestidade seja possível abandonar explicações confortáveis e enfrentar o fracasso que, de tanto se repetir, passamos a achar normal.
Quando eu ainda era adolescente e tentava entender o avanço da minha surdez, uma fonoaudióloga me disse:
“Escreva sobre surdez.”
Na época, aquela frase não fez muito sentido. Minha preocupação era outra. Eu queria entender por que os aparelhos auditivos não conseguiam me devolver a audição que eu conhecia.
Só muitos anos depois aquela sugestão começou a fazer sentido.
Com o tempo, entendi que tudo o que vivi ao longo de mais de trinta anos não precisava ficar guardado apenas em mim.
A perda auditiva progressiva, os limites da tecnologia, os aparelhos, os implantes cocleares, a dificuldade de comunicação, o isolamento, a raiva, a vergonha e a resistência se tornaram parte da história que eu precisava contar.
Foi essa vivência que entreguei a William, protagonista do romance.
Por meio dele, tentei transformar a experiência da surdez em literatura. Não apenas para explicar o que é perder a audição, mas para fazer o leitor atravessar essa realidade por dentro.
Em Nuances do Silêncio, William vê sua capacidade de comunicação ser profundamente abalada e precisa enfrentar um desafio que redefine sua forma de se relacionar com o mundo, com os outros e consigo mesmo. Em sua jornada, ele explora os recursos ao seu alcance, encara os limites da tecnologia e desenvolve uma visão singular da vida a partir da perspectiva da surdez.
Mais do que um retrato sensível da experiência de uma pessoa com deficiência auditiva, esta história questiona as normas sociais sobre comunicação e convida o leitor a enxergar a surdez não apenas como uma perda, mas como uma experiência que atravessa identidade, linguagem, pertencimento e resistência.
Nuances do Silêncio mergulha com sensibilidade e profundidade na complexa realidade da surdez, revelando suas camadas e ampliando a compreensão sobre a experiência humana.
É uma obra especialmente indicada para quem trabalha com reabilitação auditiva, educação ou para qualquer pessoa ligada à surdez de alguma forma — seja como profissional, familiar ou protagonista da própria história.
sobre o autor
Felipe Afonso começou a perder a audição de forma progressiva ainda jovem e encontrou na escrita uma forma de elaborar as próprias experiências. Surdo oralizado, passou pelo uso de aparelhos auditivos e hoje utiliza implantes cocleares nos dois ouvidos.
Bacharel em Engenharia da Computação e desenvolvedor de software, construiu sua trajetória profissional na área de Tecnologia da Informação. Paralelamente à carreira em TI, passou a transformar sua vivência com a deficiência auditiva em literatura e reflexão social.
É autor da série literária Nuances da Surdez, que reúne ficção e não ficção para explorar as dimensões emocionais e sociais da surdez, da inclusão e da exclusão.
No romance Nuances do Silêncio, aborda a perda auditiva, os aparelhos auditivos, o implante coclear e os impactos emocionais de viver entre o som e o silêncio, por meio de uma história inspirada em experiências reais.
Em Nuances da Exclusão, amplia esse olhar para além da surdez e questiona a distância entre o discurso da inclusão e a realidade vivida pelas pessoas com deficiência. A obra de não ficção combina vivências, dados e reflexão crítica para revelar barreiras que muitas vezes passam despercebidas.
Atualmente, desenvolve novos projetos para a série e realiza palestras sobre sua trajetória pessoal e os desafios da inclusão de pessoas com deficiência.
Também compartilha reflexões, bastidores e novidades de Nuances da Surdez no Instagram: @ffelipeafonso
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